Escritor autodidata, servidor do TRT17 lança livro de contos

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“Sou autodidata e comecei a escrever ainda criança, talvez como resultado direto do primeiro contato feliz com os livros. Tive a sorte de sempre ter tido muito estímulo com a leitura em casa, desde criança.” Se a leitura e, principalmente, a escrita sempre esteve presente na vida do servidor do TRT17, Claus Zimerer, a intenção mais “séria” de publicar seus escritos surgiu há uma década, e, no mês de junho deste ano, o servidor que também é filósofo lançou sua primeira obra de contos: “Manga Verde”.

 

“Assim como minhas fontes de leitura são bastante amplas (costumo brincar com os amigos dizendo que leio até bula de remédio), também escrevo um pouco de tudo: ensaios (por influência da formação filosófica), poemas, crônicas, contos, e atualmente tenho trabalhado num romance, ainda sem data para publicação. Apesar de gostar muito do gênero, como leitor, só não arrisquei ainda em dramaturgia, mas tenho feito muitas leituras e cursos livres na área, para aprender mais e me familiarizar com as fantásticas produções estrangeiras e nacionais”, explicou.

Claus se define como um “rabiscador de palavras” e o processo para preencher as páginas dos blocos de anotações “é pessoal e intransferível. Penso que tudo faz parte do processo. Não excluo nada. Na busca de todo tipo de inspiração, entram como fontes desde as mais antigas memórias de infância, os livros recém-lidos ou autores recém-descobertos, notícias de jornal, bate-papo e festas com amigos, filmes, músicas, viagens, andar de ônibus ou num parque, etc. Eu não gosto de predeterminar de forma rigorosa como será o início da escrita, qual o assunto, qual o final, daí como sempre ando com um pequeno bloquinho e uma caneta no bolso (disciplina que aprendi com Guimarães Rosa), se pintar um ‘insight’ tomo notas e começo a escrever depois, na maioria das vezes com uma ideia básica na cabeça apenas para iniciar e deixo o texto andar pra ver aonde leva”, disse.

Ainda sobre a criação, ele se afasta do cartesianismo, onde a lógica, a matemática e a racionalização são predominantes. “Como diria Roland Barthes, às vezes é um tipo de pretensão querer determinar racionalmente aonde um texto pode nos levar. É mera ‘pose de autor’ é apenas uma ilusão ou vaidade besta. Há forças inominadas que movem toda caneta, todo verso, e é importante lembrar ainda que todos somos autores (co-autores), na medida em que também lemos e reinterpretamos à nossa moda e com nossa ótica o escrito. O texto, em muitos casos é quem verdadeiramente nos conduz, é só não nos deixarmos limitar por fatores externos, ideias preconcebidas ou leituras superficiais. No final, depois do rascunho pronto, é que procuro ver se aquilo seria bom numa poesia, ou num conto, ou quem  sabe ainda numa crônica.”

Finalizar uma crônica, por exemplo, não é o objetivo principal para Claus que muda e reverte um texto em variados gêneros literários até ficar satisfeito com a forma que ele toma. “Tem coisa que nasce pra ser poesia, outros temas inspiram crônicas , e assim por diante. Mas o importante nisso tudo é que nunca está acabado. Se hoje tenho um propósito e um determinado conceito de criação, mês que vem poderá ser outro. Importante mesmo é descobrir o que nos inspira de verdade. Isso pode levar décadas, mas nunca devemos desistir.”

Ser escritor no Brasil

Para ser escritor, de acordo com Claus, é preciso ter “algum grão de otimismo guardado lá em algum lugar do espírito. Um otimismo crítico e balizado, talvez, mas sobretudo uma alma de criador, que mesmo nas intempéries, acredita de certa forma que toda criação traz em si uma positividade”. Apesar de não se considerar um escritor profissional, já que se dedica também ao trabalho no TRT17, o servidor constata que não é nada fácil para quem procura seguir o caminho das letras em tempo integral. 

“Há falta de políticas mais sólidas a respeito, dentre múltiplos fatores, e esbarramos aqui no Brasil em limites estruturais de formação de público leitor e acesso à melhor literatura, uma literatura menos comercial, uma vez que setores como “ficção infanto-juvenil” e “autoajuda” parecem andar de vento em  popa. A princípio, considerando-se que alguma leitura é sempre melhor que nenhuma, não tenho nada contra a escrita comercial, enquanto um propósito honesto e legítimo entre outros, mas isso não é literatura, na minha opinião. Há que se diferenciar aqui, os ‘escritos com sangue’, como dizia Nietzsche ao lembrar Dostoiéviski, dos escritos superficiais e de puro entretenimento ou de aspectos técnicos. Literatura está acima disso.”

Atualmente, além de se dedicar aos livros, Claus também publica seus textos em dois blogs: no “O Aleph” e “Castelos de Ar“. As duas páginas surgiram há cinco anos e “no início, a idéia era manter um deles dedicado à poesia e o outro para textos em prosa. Hoje já misturou tudo (risos), mas ainda assim sempre escrevo, semanalmente, em um ou outro, em diferentes gêneros. Gosto de exercitar os diversos gêneros da escrita.  Apesar de eu ser um típico apaixonado pelo livro de papel (esse objeto quase mítico), o meio eletrônico trouxe para mim uma facilidade maior de manter organizados os textos, a editoração, publicação e a divulgação de página”, afirmou.

Além dos blogs, é possível manter contato com o servidor e escritor pelo e-mail clauszimerer@hotmail.com ou página pessoal no Facebook. É possível adquirir o livro pelo site da Editora Cousa pelo valor de R$27, além do frete ou diretamente com o servidor pelo e-mail.

Confira abaixo um trecho do conto “O homem que queria ser letra” publicado no livro “Manga Verde”.

“O homem que queria ser letra”

” (…)  Falando em algum lugar sobre crianças, tornei-me também infante brincando com os resultados e armando meus personagens como bonecos a viver histórias, e não apenas satisfeito com isso, insuflei vida sobre os bonecos, pensamentos, insatisfações, riso e desaforo como toda criança. Rabiscando pensamentos impunes sobre o amor, tornei-me paixão, amei e impunemente fui amado (só agora sei), variei meus temperamentos, tendências  e fortes emoções entre as fases da lua ou entre as horas que compõem o espaço assustadoramente rápido entre a noite e o dia. Lançando meus apontamentos intimoratos sobre a velhice, senti o cansaço sobre minhas pernas, o prazer da dor física a habitar meu corpo inteiro, a pulsação eclipsada de flertar com a morte todas as noites ao beijar o travesseiro e vivi as rugas precoces de um momento futuro. Fiquei mais sábio e mais calado quando velho, mesmo isso (as duas coisas: sabedoria e silêncio) sendo constatações contra a minha natureza Oswaldianamente antropofágica, verborrágica. Sendo homem, jovem e decidido também dividi meus versos entre ódio e incompreensão, fui mais fundo no sentido humano de existir sem ter uma razão, e espraiando como o sol a generosidade de dividir meus raios e meu calor com as plantas e bichos, entendi por fim a última arte e talvez a mais difícil: a virtude do ser-mulher e do ser-mãe, quando vi meus textos darem à luz novas formas de vida, novas possibilidades originais e intocadas de sentir o mundo de revés por diversos olhares inauditos”.

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