Elza Soares: a fênix do samba

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Aos 13 anos, pesando menos de 40kg, nascia uma estrela, de acordo com Ary Barroso, compositor e conhecido por ser apresentador de um programa do tipo show de calouros na Rádio Tupi. A menina tinha sido motivo de risada para a plateia do programa, por conta de sua aparência “alienígena” (muito magra, com roupas da mãe e o cabelo à la Maria Chiquinha) e de espanto para o apresentador. Elza calou quem estava nos estúdios do programa, em 1953, em dois momentos: quando disse de onde veio e quando começou a cantar. Ary Barroso perguntou de que planeta ela vinha, e irada com a chacota da plateia, a menina Elza respondeu: “do mesmo que o seu. O planeta fome”. 

Nascida no subúrbio carioca, em Vila Vintém, se casou aos 12 anos obrigada pelo pai, e foi mãe aos 13. Aos 21 anos, ficou viúva e tinha quatro filhos para criar. Elza descobriu a força de sua voz tipo “trompete”, como ela define, carregando latões cheios d’água na cabeça, morro acima da favela. Quando participou do programa de Ary Barroso ela tinha duas motivações: mostrar que poderia ser uma cantora e ganhar o prêmio para alimentar a família, em especial, o filho recém-nascido que estava gravemente doente com desnutrição. Apesar de ter levado o prêmio do programa para casa, o “guri” não resistiu e faleceu.

Desceu o morro para nunca mais subir, após o primeiro disco gravado pela Odeon, em 1960, que tem o mesmo nome da música composta pelo gaúcho Lupicínio Rodrigues, “Se acaso você chegasse”, uma das canções responsáveis por abrir muitas portas para a cantora. Mas, antes de conseguir o primeiro contrato com a gravadora Odeon, a carioca teve o contato mais explícito no mundo musical com o racismo: teve a proposta recusada pela gravadora RCA por ser negra, apesar de “cantar muito”, de acordo com os produtores.

Num período em que a música brasileira tinha Vinícius de Moraes e Tom Jobim como os principais representantes da Bossa Nova, Elza escancarou seu talento no segundo disco, gravado em 1961, com um nome mais apropriado impossível: “A Bossa Negra”. “Beija-me”, “Só vendo que beleza (Marambaia)” e “Edmundo” foram alguns sucessos desse disco que ainda aparecem em shows da cantora atualmente, reconhecida, ainda, por mesclar o samba ao jazz.

No ano seguinte, em 1962, Elza foi madrinha da Seleção Brasileira de Futebol, campeã do mundo no Chile, sob o comando do jogador Mané Garrincha. Durante a Copa, Elza recebeu um convite de Louis Armstrong que representou os Estados Unidos na competição, e se encantou pela voz da cantora brasileira. Louis achava que Elza tinha um saxofone na garganta e fez o convite para que ela cantasse nos Estados Unidos, mas ela preferiu voltar ao Brasil e continuar a carreira que tinha acabado de começar. Também apostou que o “namorico” entre ela e Garrincha se transformaria em algo maior. E se transformou. 

Se casaram, tiveram um filho, ficaram mais de 16 anos juntos, mas não passaram despercebidos na época, alguns culpavam a cantora pelo fim do casamento anterior, pelo alcoolismo do jogador que abalou sua carreira no futebol e outros a chamavam de bruxa por impedir que o marido bebesse com os amigos. Para ela, o ano de 1970 foi um dos piores de sua vida: Garrincha não foi convocado para a Copa do Mundo e sua casa no Rio de Janeiro foi metralhada, após vários telefonemas e cartas anônimas ameaçando o casal e os filhos. Foram para Roma, moraram em um hotel durante vários meses, o marido em desespero por não estar jogando futebol, coisa que ele mais amava, e ela desesperada para manter a família no exterior e ajudar o companheiro.

Chico Buarque e Marieta Severo também estavam exilados na capital romana e foram alguns dos amigos “de alma”, como ela diz, que ajudaram os dois. Elza teve um empresário na Itália e a bossa nova e o samba voltaram à rotina da cantora. Pagava as contas com os cachês recebidos pelas apresentações e sustentou a família durante esse ano.  

Um hiato de quase dez anos na carreira da cantora silenciou a Elza-mãe, mais uma vez, ao perder o único filho com o jogador, em 1986. Garrinchinha faleceu aos oito anos de idade, em um acidente automobilístico, no Rio de Janeiro, voltando de um jogo de futebol. A mãe dela também havia falecido anos antes em outro acidente de carro. Elza viajou para vários países, mudou de religião e desistiu da música, considerada a sua única opção para não enlouquecer. A lata d’água ficou pesada demais para ela carregar.

Dessa vez, o amigo de alma foi o cantor, compositor e percussionista Naná Vasconcelos, que indicou a amiga para substituir a cantora estadunidense Ella Fitzgerald, em Roma, após uma complicação na saúde, durante os shows com o repertório de Tom Jobim. Após voltar ao Brasil, Elza foi amparada por outro amigo: o cantor e compositor Caetano Veloso, que secou as lágrimas dela em um encontro, em São Paulo, e mostrou uma composição inédita para a cantora, a música “Língua”.

A tatuagem de uma fênix na perna não deixa enganar: ela renasceu de várias tragédias e elegeu o agora como objetivo na vida. No agora de Elza, apesar dos pinos na coluna e das diversas cirurgias realizadas para conter o achatamento provocado por uma queda no palco, em 1999, tem pouco movimento da mulata que sambava em cima de saltos de 15cm, mas tem muito de quem foi considerada a cantora do milênio pela BBC de Londres, no ano 2000.

Os últimos discos gravados por ela, entre eles, “Do Cóccix até o Pescoço”, 2002, e o último, de 2010, “Deixa a Nega Gingar”, experimentações de outros sons, outros formatos, como a presença de DJ’s no palco, apresentaram a cantora a um público mais jovem que se assusta ao vê-la entrar amparada no palco. Mas Elza não se identifica com a fênix à toa, ela renasce a cada música, afinadíssima, e não perde o rebolado nem quando precisa fazer o show sentada.  

Às vésperas de lançar um CD com músicas inéditas e composições de José Miguel Wisnik, ela ainda encontra forças para divulgar pelo Brasil um documentário sobre sua vida, “My name is now”, dirigido por Elizabete Martins. A agenda de shows continua frenética, mesmo com as dificuldades para se locomover. Para conferir mais informações sobre as apresentações e o documentário, acesse o site oficial da cantora ou o perfil no Facebook, e programe o próximo show, now!  

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Aos 13 anos, pesando menos de 40kg, nascia uma estrela, de acordo com Ary Barroso, compositor e conhecido por ser apresentador de um programa do tipo show de calouros na Rádio Tupi. A menina tinha sido motivo de risada para a plateia do programa, por conta de sua aparência “alienígena” (muito magra, com roupas da mãe e o cabelo à la Maria Chiquinha) e de espanto para o apresentador. Elza calou quem estava nos estúdios do programa, em 1953, em dois momentos: quando disse de onde veio e quando começou a cantar. Ary Barroso perguntou de que planeta ela vinha, e irada com a chacota da plateia, a menina Elza respondeu: “do mesmo que o seu. O planeta fome”. 

Nascida no subúrbio carioca, em Vila Vintém, se casou aos 12 anos obrigada pelo pai, e foi mãe aos 13. Aos 21 anos, ficou viúva e tinha quatro filhos para criar. Elza descobriu a força de sua voz tipo “trompete”, como ela define, carregando latões cheios d’água na cabeça, morro acima da favela. Quando participou do programa de Ary Barroso ela tinha duas motivações: mostrar que poderia ser uma cantora e ganhar o prêmio para alimentar a família, em especial, o filho recém-nascido que estava gravemente doente com desnutrição. Apesar de ter levado o prêmio do programa para casa, o “guri” não resistiu e faleceu.

Desceu o morro para nunca mais subir, após o primeiro disco gravado pela Odeon, em 1960, que tem o mesmo nome da música composta pelo gaúcho Lupicínio Rodrigues, “Se acaso você chegasse”, uma das canções responsáveis por abrir muitas portas para a cantora. Mas, antes de conseguir o primeiro contrato com a gravadora Odeon, a carioca teve o contato mais explícito no mundo musical com o racismo: teve a proposta recusada pela gravadora RCA por ser negra, apesar de “cantar muito”, de acordo com os produtores.

Num período em que a música brasileira tinha Vinícius de Moraes e Tom Jobim como os principais representantes da Bossa Nova, Elza escancarou seu talento no segundo disco, gravado em 1961, com um nome mais apropriado impossível: “A Bossa Negra”. “Beija-me”, “Só vendo que beleza (Marambaia)” e “Edmundo” foram alguns sucessos desse disco que ainda aparecem em shows da cantora atualmente, reconhecida, ainda, por mesclar o samba ao jazz.

No ano seguinte, em 1962, Elza foi madrinha da Seleção Brasileira de Futebol, campeã do mundo no Chile, sob o comando do jogador Mané Garrincha. Durante a Copa, Elza recebeu um convite de Louis Armstrong que representou os Estados Unidos na competição, e se encantou pela voz da cantora brasileira. Louis achava que Elza tinha um saxofone na garganta e fez o convite para que ela cantasse nos Estados Unidos, mas ela preferiu voltar ao Brasil e continuar a carreira que tinha acabado de começar. Também apostou que o “namorico” entre ela e Garrincha se transformaria em algo maior. E se transformou. 

Se casaram, tiveram um filho, ficaram mais de 16 anos juntos, mas não passaram despercebidos na época, alguns culpavam a cantora pelo fim do casamento anterior, pelo alcoolismo do jogador que abalou sua carreira no futebol e outros a chamavam de bruxa por impedir que o marido bebesse com os amigos. Para ela, o ano de 1970 foi um dos piores de sua vida: Garrincha não foi convocado para a Copa do Mundo e sua casa no Rio de Janeiro foi metralhada, após vários telefonemas e cartas anônimas ameaçando o casal e os filhos. Foram para Roma, moraram em um hotel durante vários meses, o marido em desespero por não estar jogando futebol, coisa que ele mais amava, e ela desesperada para manter a família no exterior e ajudar o companheiro.

Chico Buarque e Marieta Severo também estavam exilados na capital romana e foram alguns dos amigos “de alma”, como ela diz, que ajudaram os dois. Elza teve um empresário na Itália e a bossa nova e o samba voltaram à rotina da cantora. Pagava as contas com os cachês recebidos pelas apresentações e sustentou a família durante esse ano.  

Um hiato de quase dez anos na carreira da cantora silenciou a Elza-mãe, mais uma vez, ao perder o único filho com o jogador, em 1986. Garrinchinha faleceu aos oito anos de idade, em um acidente automobilístico, no Rio de Janeiro, voltando de um jogo de futebol. A mãe dela também havia falecido anos antes em outro acidente de carro. Elza viajou para vários países, mudou de religião e desistiu da música, considerada a sua única opção para não enlouquecer. A lata d’água ficou pesada demais para ela carregar.

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