Constituição segue dando respostas aos desafios do Brasil
Confira decisões do STF do último ano que mostram a Constituição em ação…
Servidores lembram como era o trabalho no Judiciário nos anos 80.

Máquinas de escrever, papel carbono, fichários e processos que precisavam ser carregados de um lado para outro faziam parte da rotina. Quem trabalha hoje no Judiciário talvez tenha dificuldade para imaginar como eram os dias de uma “junta”, como se chamavam as varas, algumas décadas atrás.
Não havia processo eletrônico, consulta de andamento em poucos cliques, assinatura digital ou documentos enviados instantaneamente. Havia máquinas de escrever, papel carbono, fichários e prateleiras cheias de processos.
Para resgatar um pouco dessa história, a ANAJUSTRA Federal, em colaboração com o Sou Mais Justiça, entrou na onda da trend dos anos 80 que tomou conta do Instagram e perguntou aos servidores: como era trabalhar no Judiciário naquela época?
A publicação rapidamente virou um mural com relatos de quem ingressou nos anos 70, 80 e início dos 90, e suas lembranças de dificuldades, desafios, amizades e, principalmente, de uma rotina de trabalho que hoje parece pertencer a outro mundo.
Adelia Reymer, que atuava como oficial de Justiça, lembrou que os mandados eram datilografados em máquina manual. Ela também acompanhou a transição para a máquina elétrica. E havia um detalhe que chama atenção de quem está acostumado ao Ctrl+C e Ctrl+V: eram cinco cópias.
“Datilografar sentença era pura ‘mágica’”, contou. Para ela, a chegada da máquina elétrica foi um verdadeiro “paraíso”.
A lembrança de Cristiane Delgado, que ingressou na Justiça do Trabalho em 1979, ajuda a dimensionar o esforço envolvido. Na época, ela trabalhava em São Bernardo do Campo, região marcada pelas greves dos metalúrgicos e por intensa movimentação trabalhista. Segundo ela, não havia sequer máquina de datilografia elétrica.
O papel carbono era usado para produzir cópias e os datilógrafos precisavam ser muito precisos para evitar erros. Ela contou que os processos físicos ficavam cada vez mais pesados à medida que novas folhas eram acrescentadas. Para encontrá-los, os servidores contavam com fichas nas quais eram registrados os andamentos, organizadas em fichários. “Carregávamos muito peso e tínhamos que ter excelente memória para lembrar onde os processos estavam”, relatou.
Jane Franco ingressou na Justiça do Trabalho em 1986 e descreveu uma tarefa que hoje pode parecer quase inimaginável: datilografar a capa dos processos.
A capa era feita de uma cartolina grossa, dobrada ao meio. Colocá-la corretamente na máquina já era um desafio e, conforme a escrita avançava, o material ia se deformando. Depois vinham os grampos, a numeração das páginas e o carimbo “em branco” no verso de cada folha. E podiam ser centenas delas.
As intimações também exigiam trabalho manual: datilografia, envelopes, listagens e, depois, a ida até a agência dos Correios para postagem. Jane acompanhou boa parte dessa transformação até a chegada do processo eletrônico.
As mudanças não estavam apenas nos equipamentos. A própria rotina das unidades judiciárias era muito diferente.
Norma Lúcia Araújo contou que havia cofres nas varas para guardar o dinheiro dos alvarás expedidos. Os acordos eram pagos na própria unidade, pelo servidor.
Os relatos ajudam a entender também o contexto institucional daquele período.
A Justiça do Trabalho, por exemplo, estava estruturada em Juntas de Conciliação e Julgamento, Tribunais Regionais do Trabalho e Tribunal Superior do Trabalho, modelo consolidado pela Constituição de 1946. As Juntas só seriam substituídas pelas atuais Varas do Trabalho em 1999, com a Emenda Constitucional nº 24.
Também é importante lembrar que o próprio Poder Judiciário passaria por uma mudança constitucional profunda no fim daquela década.
A Constituição de 1988 ampliou significativamente o rol de direitos e garantias e reforçou o papel do Judiciário na proteção desses direitos. Com isso, a demanda por Justiça cresceu. O CNJ registra que a estrutura de recursos humanos, financeiros, orçamentários e tecnológicos disponível posteriormente não acompanhou de imediato esse aumento de demandas.
Ou seja: os servidores que contaram suas histórias estavam trabalhando em um Judiciário que ainda seria profundamente transformado nas décadas seguintes.
Mara Nicastro lembrou outro detalhe que ajuda a dimensionar a distância entre aquela época e a atual: os juízes escreviam as sentenças à mão e os servidores as datilografavam para juntá-las aos processos.
Em algumas situações, as decisões eram ditadas aos datilógrafos durante as audiências.
Hoje, em um ambiente no qual decisões podem ser elaboradas, revisadas e assinadas eletronicamente, é difícil imaginar a quantidade de trabalho envolvida em cada uma dessas etapas.
A transformação tecnológica do Judiciário não aconteceu de uma hora para outra.
O próprio CNJ descreve a passagem de um modelo baseado em processos físicos, papel, pastas, carimbos e protocolos para a informatização e, posteriormente, para a tramitação online. A Lei nº 11.419/2006 foi um marco para a informatização do processo judicial, seguida por iniciativas de padronização e numeração dos processos.
A dimensão dessa mudança também aparece nos números disponíveis.
Em 1990, ingressaram cerca de 5,5 milhões de processos novos no Judiciário brasileiro, segundo dados do então Banco Nacional do Poder Judiciário.
Hoje, a realidade é outra. O Justiça em Números 2025 registra 80,6 milhões de processos pendentes no fim de 2024. E há uma diferença fundamental: hoje, boa parte desse enorme volume é movimentada digitalmente.
A tramitação virtual trouxe economia de papel, trabalho, tempo e combustível, além de maior racionalidade e agilidade ao funcionamento da Justiça.
A tecnologia mudou o Judiciário e mudou muito.
Quem trabalha hoje nas varas, fóruns, tribunais e seções talvez nem imagine tudo o que já foi necessário para fazer o Judiciário funcionar.
Por isso, as histórias contadas pelos servidores são também uma forma de preservar essa memória.
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