DIA DO VIRA-LATA

J.C Ramos celebra a beleza e a lealdade dos cães sem raça definida

Poeta maranhense radicado em Itajaí (SC), João já é conhecido pelos leitores do Espaço Cultural.

No próximo 31 de julho, é comemorado o Dia do Vira-Lata, uma data dedicada aos milhões de cães sem raça definida que conquistam lares com lealdade, afeto e companheirismo.

Inspirado por essa celebração, o associado João da Cruz Ramos Filho, servidor aposentado do TRT da 12ª Região (SC), preparou um texto especial em homenagem aos animais que, muitas vezes, enfrentam o abandono, mas seguem oferecendo amor incondicional a quem cruza seus caminhos.

Poeta maranhense radicado em Itajaí (SC), João já é conhecido pelos leitores do Espaço Cultural. Recentemente, lançou seu primeiro livro infantojuvenil, O Brilho da Estrelinha Marrom, obra que convida crianças e adultos a refletirem sobre inclusão, sensibilidade e o valor das diferenças.

Agora, o autor empresta sua sensibilidade para celebrar outra forma de diversidade: a dos cães sem raça definida, lembrando que o verdadeiro valor de um animal não está na origem ou na aparência, mas na capacidade de transformar vidas com carinho e fidelidade.

Confira, a seguir, a homenagem escrita especialmente para marcar o Dia do Vira-Lata

Barão: o meu adorável vira-lata

O ano era 1978. Eu estava há três anos no Distrito Federal, vindo de São Luís do 

Maranhão. Estudava num colégio de cujo nome eu gostava muito: Centro Educacional 

Ave Branca, o meu querido CEAB, em Taguatinga. Eu já havia me encantado com os 

pardais de Brasília — que eram tantos que pareciam formigas —, minorando a saudade 

das andorinhas de minha São Luís e até dos bem-te-vis de minha terra natal, Maioba, 

atualmente Paço do Lumiar.

Foi por intermédio de minha irmã Nair, que trabalhava como contadora em Ceilândia 

Norte há uns quatro anos, que cheguei ali. Lembro-me tão bem de como ela sorria 

quando eu dizia: “Estou aqui para desbravar novos horizontes”. Foi também pelas mãos 

dela que conheci a família Gomes: pessoas maravilhosas com quem fiz uma grande e 

duradoura amizade.

Sempre que eu estava na casa deles, o que me impressionava era a maneira como as 

crianças tratavam o pet da família que, apesar do pomposo nome “Barão”, era um alegre 

vira-lata preto de porte médio, com pelagem branca no peito e nas patas que lhe dava 

ares de border collie. A atenção dele era disputadíssima, principalmente pelas crianças, 

mas também pelos adultos.

O Barão tinha um verdadeiro fã-clube nas redondezas. Todos os vizinhos nutriam 

enorme admiração por aquele cachorro. O mais interessante é que, quando o 

encontravam na frente de casa, cumprimentavam: “Como vai, senhor Barão?” e saíam 

sorrindo. Aquele nome, para um cão sem raça definida, causava um simpático impacto.

Quando as crianças chegavam da escola e o cachorro não as recepcionava à porta, a 

pergunta era uníssona: “Cadê o nosso cãozinho?” E ele vinha lá do quintal em 

disparada, abanando a cauda e dando alguns latidos, querendo abraçar uma por uma das 

crianças, parecendo se sentir acolhido por todas.

O senhor Gomes era o chefe da família e em pouco tempo se tornou o meu chefe 

também, pois logo comecei a trabalhar com eles. A família atuava no comércio de

produtos óticos e relógios, além de manter uma representação de utilidades domésticas 

— setor em que me encaixei. Quando ele voltava do trabalho, o Barão ia ao seu 

encontro antes mesmo de ele entrar em casa. Era uma festa para ambos.

Às vezes, durante a semana, eles me convidavam para almoçar. A atenção da mesa 

dividia-se entre mim e o vira-lata que, pelo visto, simpatizara comigo tanto quanto todos 

daquela alegre casa. Lembro-me de que o prato mais servido durante a semana era arroz 

com feijão, ovos e bananas fritas, acompanhados de uma generosa salada de tomate e 

alface. Já aos domingos, o cardápio mudava: churrasco com pão de cebola e maionese. 

O refrigerante era sempre Pepsi, porque a novinha da casa fazia birra e dizia com todas 

as letras: “Eu quero é P-e-p-s-i!”

Antes do almoço, costumava-se fazer uma oração. Nesse momento, Suzy — a dita 

novinha —, pegava as patas dianteiras do Barão, levantava-as e dizia: “Vamos rezar 

para que o Papai do Céu proteja você também, meu cachorrinho”.

Gomes me dedicava uma atenção extrema. Logo nos tornamos grandes amigos e, muito 

tempo depois, compadres, quando nasceu a sua caçula, Ane.

E assim era a minha vida em Brasília: estudando à noite e trabalhando de dia. Foi por 

intermédio do Gomes que conheci São Paulo, um sonho que eu acalentava há muito 

tempo. Viajei para lá em busca de algumas representações comerciais e fui bemsucedido. Com ele, conheci também o Rio de Janeiro.

Esses dois estados geralmente são o destino da maioria dos nordestinos que saem à 

procura de novos horizontes. Tanto é que, no Maranhão, os pais que tinham filhos 

residindo nessas metrópoles diziam cheios de orgulho: “Meu filho mora no Rio!” ou 

“Minha filha mora em São Paulo e está muito bem!”. Quando os filhos voltavam ao 

torrão natal, mesmo tendo passado apenas um mês fora, já regressavam com o sotaque 

daquela região — o “R” do paulista ou o “chiado” do carioca. Era engraçado escutar 

aqueles arremedos.

Lembro ainda do Barão e de um dos cios da Niágara, uma cadela da raça pastor alemão 

que pertencia à vizinha deles, dona Iolanda. Certa vez, a meninada chegou da escola e, 

bem na frente de casa, avistou o Barão e a Niágara “grudados”, como disseram ao 

Gomes mais tarde. As crianças começaram a gritar: “Entra para casa, Barãozinho!”, 

enquanto os outros acompanhavam: “Solta o nosso cachorro, sua Niágara feia!”

Em seguida, uma delas sugeriu: “Vamos chamar o papai, acho que alguém grudou os 

dois com cola!”. A mãe, vendo o alarido, pediu que entrassem e esperassem. Eles 

obedeceram a contragosto, enquanto ela prometia: “Depois eu explico a vocês o que 

está acontecendo”. Até hoje não sei o que ela explicou, mas deve ter contado sobre a 

magia de como surgem no horizonte da vida os cachorrinhos que depois se transformam 

em Barões e Niágaras.

Mas o que mais me emocionou a respeito do Barão aconteceu quando, em Brasília e em 

suas cidades-satélites — especialmente Ceilândia —, apareceu um número exorbitante 

de animais perambulando pelas ruas. Algumas pessoas foram diagnosticadas com o 

vírus da raiva e os centros de zoonoses, com a sua popular “carrocinha”, saíram 

recolhendo os bichos. Após a apreensão, os tutores tinham três dias para efetuar o 

resgate. Caso não o fizessem, o animal era submetido à eutanásia — diferentemente de 

hoje, quando o animal resgatado é encaminhado para adoção ou para um abrigo 

adequado.

Foi aí que, na casa dos Gomes, todos se comprometeram a não deixar o Barão ir para a 

rua em hipótese alguma. Checaram a carteirinha de vacinação e viram que estava em 

dia, inclusive a imunização contra a raiva. As crianças, ao saírem, enchiam-no de 

conselhos: “Não foge de casa, Barãozinho! Olha a carrocinha!”

Mas ninguém contava com o novo cio da Niágara. Tudo aconteceu de repente. As 

crianças tinham ido para a escola, o Gomes estava no trabalho e apenas a comadre Sana 

permanecia em casa. Alguém gritou “Correio!” e ela correu para atender, sem perceber 

que o Barão a acompanhava. Enquanto recebia a encomenda… eis que surge airosa em 

frente à casa, diante dos apaixonados olhos do Barão, a cadela Niágara, coberta de 

feromônios da cabeça aos pés!

Naquele instante, o Barão esqueceu todos os conselhos das crianças; só lhe importavam 

os belos olhos amendoados de Niágara. Repleto de desejo, desembestou porta afora. E, 

como num passe de mágica, algo os grudou novamente.

A comadre Sana, quando deu por si, gritou: “Barão!”. Mas já era tarde. Quando o 

cachorro se prende, não solta e parece até que fica surdo. Ela chamou o safado e nada de 

ele dar ouvidos. Infelizmente, nesse exato momento, surgiu a temida carrocinha. Os 

agentes de saúde ambiental, sem a menor consideração por aquele idílio, avançaram 

sobre o casal em lua de mel.

Sana, vendo a cena, gritava desesperada: “Já para dentro, vocês!”. Eles nem ligavam, 

fazendo ouvido de mercador. Enquanto os agentes tentavam capturá-los, os cães 

lutavam ferozmente e mostravam os caninos, parecendo uma cobra de duas cabeças. A 

comadre chorava: “Não levem o meu Barão! Ele é vacinado!”. Os agentes perguntaram: 

“E a cadela?”. Sana respondeu: “Eu não sei, perguntem para ela!”.

“Ah, é?”, resmungaram os agentes. Sana logo emendou: “Perguntem para a dona 

Iolanda, a tutora dela, é a vizinha!”, apontando para a casa ao lado. Quando eles 

perderam a paciência e tentaram separar os cachorros mais uma vez, dona Iolanda 

apareceu: “Podem parar com isso! A minha Niágara é vacinada!”, retornando em 

seguida com o comprovante. Ao prestar atenção na cena, balançou a cabeça para a 

Niágara em sinal de desaprovação, como quem diz: “Poxa… logo com esse vira-lata?”.

Enquanto isso, a comadre enveredou casa adentro em busca do comprovante do Barão. 

Estava tão ofegante de tanto tentar colocar os cachorros para dentro que nem se deu 

conta da plateia considerável assistindo à cena. Um engraçadinho da rua chegou a 

chamar um canal de televisão. A equipe de TV chegou justamente no momento em que 

os documentos de vacinação eram entregues aos agentes.

A equipe quis saber o que estava acontecendo e as duas tutoras deram uma entrevista, 

demonstrando todo o seu amor e respeito pelos animais. De repente, os cães se 

separaram e a paz voltou ao bairro.

Depois daquele dia, a família resolveu acorrentar o Barão para o seu próprio bem. Mas 

as crianças protestaram, dizendo que era injusto mantê-lo preso. Chegou-se ao consenso 

de que ele deveria ficar livre das correntes, restrito apenas ao quintal. Algum tempo 

depois, achando que a situação estava calma e que a carrocinha não passaria mais por 

ali, as crianças resolveram passear com o Barão na rua.

Ele, vendo-se solto, correu rua abaixo. Para o azar de todos, a carrocinha apareceu 

subitamente. Parecia até que os agentes de zoonoses estavam de tocaia. Foram rápidos: 

laçaram a rede e levaram o Barão. Não adiantaram os choros nem os argumentos das 

crianças.

Elas voltaram para casa num desgosto só. Chorando, esperaram o pai chegar. A 

comadre já havia contado a desgraça pelo telefone e Gomes veio assim que pôde. Em 

casa, as crianças falavam ao mesmo tempo: “Pai, a carrocinha levou o nosso Barão! 

Será que ele vai morrer?”.

“Vocês sabem mais ou menos a que horas o levaram?”, perguntou Gomes. A comadre 

informou que fora por volta das 14 horas. “Está bem, vamos nos acalmar. Estou indo lá 

buscá-lo”, disse o pai, saindo às pressas e torcendo para não ter acontecido o pior.

Ao chegar ao local, no Plano Piloto, Gomes foi recebido por um funcionário simpático 

que perguntou o nome do animal. “Barão. Ele é um vira-lata e foi pego hoje, por volta 

das 14 horas, em Ceilândia Norte.”

O homem sorriu: “Barão, hein? Um nome pomposo para um SRD”. O compadre olhou 

intrigado: “O quê?”. “Quis dizer sem raça definida”, respondeu o agente, emendando: 

“Hoje recolhemos mais de quinhentos cães. Uns cem foram levados para a eutanásia há 

pouco porque estavam muito doentes”.

Gomes nem prestou atenção na estatística: “Moço, onde posso pegar o meu cachorro?”. 

E o funcionário: “Calma, já vamos lá”. O compadre queria correr, tamanha a angústia. 

“Deus me livre de chegar em casa sem o Barão”, pensava, enquanto o agente parecia se 

arrastar.

“Tomara que ele não tenha ido para a ‘euta’”, apelido da eutanásia, explicava o 

funcionário. “Os vira-latas são os primeiros descartados. Depois vêm os de raça sem 

plaquinha e, por último, os identificados, após tentarmos contato com os tutores.”

Finalmente chegaram. Era um local fétido e pouco ventilado. Cães espremidos, uivando, 

numa verdadeira lamentação; alguns pareciam mortos. Havia mais de quinhentos ali. 

Quando o funcionário se aproximou das grades, os animais mostraram os dentes, 

rosnando para o mensageiro da morte. Quando ele deu passagem a Gomes, os cachorros 

deram uma trégua e silenciaram.

O compadre Gomes não se conteve e chamou com toda a força: “Barão!… Barão!… 

Barão!”. Todos os cães latiram ao mesmo tempo, como se todos atendessem por aquele 

nome.

Isso me faz lembrar uma história do meu amigo, o compadre Louro. Certa vez, um 

homem faminto pediu abrigo em uma casa. Sentindo o cheiro de um guisado apetitoso, 

ouvia a dona da casa chamar as pessoas pelo nome para almoçar. A fome apertava. 

Quando a mulher parou de chamar os nomes, o homem ficou na expectativa… De 

repente, ela gritou: “Cachorro!”. O homem faminto disparou para a cozinha. A mulher 

perguntou: “Moço, o seu nome por acaso é cachorro?”. E ele: “Não, minha senhora, mas 

para comer eu atendo por qualquer nome!”.

Para aqueles cães confinados, o compadre Gomes representava o anjo da salvação. Não 

importava o nome que gritava; o que importava é que quem chamava não tinha o cheiro 

de morte dos agentes.

Gomes entrou em desespero. Só não chorou porque lembrou do pai, que dizia que 

homem não chora. Continuou chamando pelo Barão e a reação dos cachorros era a 

mesma. Concluiu que o amigo de quatro patas não estava naquele furdunço. Triste, mas 

sem perder a esperança, lembrou-se de que muita gente confundia o Barão com um 

border collie por conta do porte e da pelagem branca no peito.

Pensando nisso, disse ao agente: “Onde fica a baia dos cachorros de raça?”. O homem o 

olhou sem entender: “Está de brincadeira?”. E Gomes: “Não, por favor, me leve lá”.

De longe, viu uma baia ligeiramente mais limpa e menos fétida. A quantidade de cães, 

porém, não era menor. Só se via os animais da frente; os outros se escondiam atrás deles 

ou de caixas de madeira entulhadas. O barulho ali era menor e quase não havia uivos.

Enquanto caminhava, o compadre lembrou-se de como aquele filhote chegara à sua 

casa: presente do sobrinho Nativo, trazido de Caucaia, terra natal dos Gomes. O 

cãozinho era gordinho e, desde pequeno, as crianças brincavam de ensiná-lo a latir num 

ritmo peculiar — “com sotaque nordestino”, diziam. Era mais ou menos assim: “Aun, 

aun, aunnnnn”.

Gomes teve um estalo: “Não vou chamá-lo pelo nome, vou latir do jeito que ele 

aprendeu”. E assim fez, para o espanto do agente.

Ao ouvir aquele som familiar, o pseudo border collie empurrou todos os cachorros à sua 

frente, abanou o rabo e respondeu ao dono no mesmo tom:

— Aun, aun, aunnnnn!

J. C. Ramos Filho

Poeta Luminense

www.jcramos.com.b

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